30 de jun. de 2009
Saio, mas nunca de mim. Corro, mas sempre por onde não quero andar. A mulher se fez líquida e se esvai por entre meus dedos. E talvez ela nunca saiba que sempre a quis mulher.
Eu estou apaixonada por ela.
- Clara Senhora:
Antes que eu me esqueça, convém lembrá-la de que estou triste.Convém também lembrar que não há nada de errado com esta pequena depressão, pois ela é a expressão mais sincera do que sempre aocntece nas segundas-feiras, das nove horas até mais ou menos onze e meia, hora em que tudo muda e me transformo na inacreditável uma que descabela o abominável ocorrido na semana e penteia os novos dias que virão com um carinho de fazer inveja aos gatos - em geral tão carinhosos - e de dar medo aos que trabalham com o que não gostam mas que, pensando bem, um pouco, dois ou três segundos, não mais obrigados, verão que não dá pra mentir pra si mesmos.Cairão dentro do que estão fazendo, cederão lugar a loucura de suas próprias vidas a aviar espaços, cavar amores, extreviar receitas, violar poderes e, ao sacar que a arma contra a arte nada pode, continuarão de um modo diferente: mais alegres na pescaria dos fatos, mais afeto, mais afeitos ao inesperado, menos aflitos, menos fúteis, mais fartos de verdades, mais fortes de mentiras; porque é mentira que sejamos obrigados a ser fortes ou médios ou fracos diante do senho maior de viver em mundos desarmados; do primeiro ao penúltimo e se um último ainda ficar armado, fique tranqüila: o recurso da história encarregar-se-á de ironizá-lo e demoronalizá-lo perante uma tribuna de livres conceitos nucleares tão inatingíveis pelo cidadão comum que, do alto do esconderijo, eu peço, não me esqueça.Aguardo notícias.
Até qualquer dia lá no esconderijo.