21 de out. de 2009

Concede o prazer da última dança? Para que eu me jogue em teus braços e me enlace em tua cintura, a deleitar-me. Saciar teus anseios entre mão, de antemão, pernas e afagos. E acariciar o rosto e os seios, lembrar o cheiro; sem pudores, sem rodeios mais. Uma vez. Marcar minha pele com sutil toque da tua. Mostrar que meu âmago te molha a essência. Somente uma vez. Peço, entregue-se. Uma primeira e última vez. Para que eu me lance, depois, sem mais lascívia. E possa seguir ao lado teu.

19 de set. de 2009

Toca o despertador: sete da manhã. Saio da cama como quem não pudesse ver o sol, devagar, sem maiores excitação para o dia que começava. Calcei meus chinelos, arrumei a calça, prendi o cabelo, me olhei no espelho. Lá estava a imagem de uma mulher magra, de cabelos curtos castanhos escuros, olhos fundos tomados pelo sono e alguns piercings e tatuagens expostas espalhadas pela pele queimada de sol.
Toda vez que decido olhar o espelho, preferia ter esquecido tal idéia, ou simplesmente olhado através dele ou ainda por sobre ele. E não é a imagem da mulher que ali se encontra que me é estranha, e sim a tristeza naqueles olhos e gestos.
Voltei-me para o banhiero e andei até lá, tomei uma longa ducha, escovei os dentes e pensei em me deitar de novo. Tudo o que eu mais queria era me deitar e permanecer deitada, até que aquele sentimento parasse, até que me fugisse toda aquela aflição, até que esquecesse Ana.
Entreguei-me ao cigarro matutino e a um café preto bem forte e sem açúcar. Com a xícara em uma das mãos fui até a sacada e olhei para rua 13 onde cada pessoa vivia o mundo, que agora, passava em frente aos meus olhos. Elas corriam por entre os carros com o intuito de não atrasar-se para o trabalho. Com fones em seus ouvidos e lap-tops em suas maletas, os ternos perfeitamente alinhados, andando sem parar. Homens e mulheres de todos os jeitos, tristes e felizes que lutavam contra seus respectivos relógios.Enquanto isso eu os via passando da janela do meu quarto. Procurava uma camiseta, estava frio lá dentro, mas não conseguia achar nada. Eram montanhas sobre outras montanhas de roupas amarrotadas curtidas num raio de sol que entrava por uma fresta que vinha do banheiro. Tudo estava escuro. Acendi outro cigarro e agarrei-me ao travesseiro. Ainda sentia o cheiro dela em todos os lugares.

30 de jun. de 2009

Talvez eu só quisesse sair. Provavelmente, sair de mim. De dentro de mim. Talvez eu só quisesse correr, por entre ruas e pessoas. Talvez tudo que eu precisasse fosse juízo e alguém ao meu lado. Porém nunca fiz nada para que isso acontecesse.
Saio, mas nunca de mim. Corro, mas sempre por onde não quero andar. A mulher se fez líquida e se esvai por entre meus dedos. E talvez ela nunca saiba que sempre a quis mulher.

Eu estou apaixonada por ela.

- Clara Senhora:

Antes que eu me esqueça, convém lembrá-la de que estou triste.Convém também lembrar que não há nada de errado com esta pequena depressão, pois ela é a expressão mais sincera do que sempre aocntece nas segundas-feiras, das nove horas até mais ou menos onze e meia, hora em que tudo muda e me transformo na inacreditável uma que descabela o abominável ocorrido na semana e penteia os novos dias que virão com um carinho de fazer inveja aos gatos - em geral tão carinhosos - e de dar medo aos que trabalham com o que não gostam mas que, pensando bem, um pouco, dois ou três segundos, não mais obrigados, verão que não dá pra mentir pra si mesmos.Cairão dentro do que estão fazendo, cederão lugar a loucura de suas próprias vidas a aviar espaços, cavar amores, extreviar receitas, violar poderes e, ao sacar que a arma contra a arte nada pode, continuarão de um modo diferente: mais alegres na pescaria dos fatos, mais afeto, mais afeitos ao inesperado, menos aflitos, menos fúteis, mais fartos de verdades, mais fortes de mentiras; porque é mentira que sejamos obrigados a ser fortes ou médios ou fracos diante do senho maior de viver em mundos desarmados; do primeiro ao penúltimo e se um último ainda ficar armado, fique tranqüila: o recurso da história encarregar-se-á de ironizá-lo e demoronalizá-lo perante uma tribuna de livres conceitos nucleares tão inatingíveis pelo cidadão comum que, do alto do esconderijo, eu peço, não me esqueça.Aguardo notícias.

Até qualquer dia lá no esconderijo.